Gustavo Cunha

Fintrender, inovador, empreendedor, economista, administrador, palestrante, professor, estudante, trader, investidor, entrevistador, executivo, pai, marido, filho, ciclista…

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A era do pagamento digital: a revolução na forma de se fazer compras

Uma coisa parece certa: pagamento em dinheiro vivo está com os dias contados. 

*Texto publicado originalmente no Blog do Gcunha da infomoney em 27/maio/2019

          O mundo dos meios de pagamento vive uma fase de grande polvorosa desde que começou a especulação sobre o Facebook lançar sua própria Stablecoin para pagamentos dentro da plataforma. E não é para menos. Com aproximadamente 4 bilhões de usuários nas plataformas do Facebook, Instagram e WhatsApp, caso essas plataformas sejam capazes de fazer transferências entre seus usuários, sem a intermediação de uma instituição financeira, viveremos uma mudança significativa na forma como fazemos pagamentos e transferências atualmente. A expectativa é que haja um anúncio sobre isso ainda esse ano ou no mais tardar no início do ano que vem.

          Analisando os últimos anos, apesar do grande aumento das Fintechs nesse setor, a forma como fazemos pagamentos pouco mudou no Brasil. Continuamos um país onde grande parte dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro seguido do cartão de crédito e débito. Valores menores em dinheiro e, à medida que o valor aumenta, aumentam as percentagens de uso do cartão de débito e crédito. Uma pesquisa do ano Passado (2018) do Banco Central mostrou pouca mudança na forma como o comércio recebia em 2018 relativo a 2013. Houve uma queda no recebimento em dinheiro e em cartão de crédito e um crescimento do recebimento em cartão de débito, mas essas 3 formas de pagamento, que registravam um total de 96% dos recebimentos em 2013, tiveram esse percentual aumentado para 98% em 2018.

          Ao passo que no Brasil as formas de pagamento mudaram pouco, no restante do mundo houve uma revolução. Tomando a China, onde esse processo foi mais intenso, hoje mais de 90% dos pagamentos e transferências são feitas por dois “aplicativos” WeChat e Alipay. Não é preciso ter conta bancária, nem cartões de crédito para se fazer um pagamento de um jantar, compra de uma televisão ou para transferir dinheiro para um amigo. A única coisa necessária é ter um celular com acesso à internet e baixar o aplicativo.

          De volta ao ocidente, países como a Suécia tem projeto para acabar com o dinheiro em papel até 2020, ou seja, ano que vem! Mas isso não vem de hoje. Eles vêm trabalhando para esse objetivo há vários anos e, em 2018 menos de 1% das transações foram feitas com papel moeda. Lá já é possível encontrar estabelecimentos onde o dinheiro em papel não é mais aceito. Para se ter uma ideia de como o sistema funciona, um jornal, tem um QR-code onde a pessoa o fotografa (utilizando um APP no celular) e faz o pagamento diretamente para o jornaleiro ou, se esse não tiver registro, para a conta da empresa dona do jornal, que fica com o dinheiro no nome do jornaleiro até ele ir lá retirar, digitalmente também, lógico! Vale ressaltar que diferentemente da Ásia, o sistema de pagamentos da Suécia, assim como o dos países escandinavos, tem a participação de todos os Bancos e é coordenado pela autoridade monetária.

Na Europa continental, mais precisamente em Portugal onde tenho mais conhecimento, pagamentos via celular ainda estão começando. Vejo Portugal com um sistema um pouco mais avançado que o Brasileiro, mas ainda muito distante da Ásia e dos países da Escandinávia. Recentemente foi lançado o MB-Way, um sistema de pagamentos associado à rede bancária, que permite fazer pagamentos através de QR-codes e transferências entre usuários, entre outras funcionalidades. A adesão está crescente e tenho confiança que com o passar do tempo o dinheiro por lá também terá seu papel diminuto.

No caso do Brasil, temos algumas empresas que já provém pagamentos digitais via QR-code, tal como Cielo, Mercado Pago e Rappi. Recentemente o Itaú lançou uma plataforma aberta (ITI) para pagamentos digitais, onde não é preciso ter conta no banco. Outra iniciativa para o ano que vem que é bem aguardada é a nova plataforma para pagamentos instantâneos do Banco Central que já está em discussão bastante avançada.

Bem, mas por que acredito que tudo isso que está acontecendo é muito bom para todos? Considerando-se que o Brasil tem uma taxa de bancarização de 70% e que 85% dos não são bancarizados tem telefone celular, a utilização de um telefone celular para fazer pagamentos pode aumentar muito esse índice e pesquisas mostram que mais acessos a serviços financeiros é uma forma eficaz de combate a pobreza. Além disso uma possível desintermediação pode trazer serviços mais baratos e eficientes para nós, usuários.

          Sendo assim, conforme vimos nos exemplos acima, a digitalização do dinheiro está de vento em popa e deve seguir com o papel moeda sendo cada vez menos utilizado. Cabe agora ver como será o sistema de pagamentos no Brasil, se centralizado e via entidades bancárias ou se descentralizado e via entidades não bancárias. Modelo do ocidente ou do oriente? A vinda do Facebook para esse jogo coloca o pêndulo mais para um lado do que para outro, e levanta a possibilidade de transformar esse sistema em um sistema mais global e menos local. A ver…

Para se aprofundar:

Youtube – Gustavo Cunha – O que é fintech – meios de pagamento (Maio/2019) 

Bloomberg – U.S. Banks Are Terrified of Chinese Payment APPs(Maio/2019)

Insper – Meios de pagamento Brasil (2018)

BCB – Relação do brasileiro com o dinheiro (2018)      

Epoca Negocios – Acesso bancário pode ajudar a combater pobreza (2018)

Medium – Bernardo Quintão – How facebook coin can help billions (Abr/19 – Inglês)

The Guardian – Sweden, how cash became more trouble than its Worth (Maio/2019 – Inglês)

CNBC – Zuckerberg reportedly held talks with Winklevoss twins about facebook cryptocurrency plans (Maio/2019 – inglês)

Fortune- Facebook Could Fix the News Industry With Micropayments (maio/2019 – inglês)

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