Gustavo Cunha

Fintrender, inovador, empreendedor, economista, administrador, palestrante, professor, estudante, trader, investidor, entrevistador, executivo, pai, marido, filho, ciclista…

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Você é cliente ou dono de uma empresa? Ou as duas coisas?

*texto originalmente publicado na minha coluna da infomoney em 28/set/2020

De todas as experiências que estão acontecendo em DEFI atualmente talvez a que mais vá impactar o mundo são os modelos de governança e a migração de modelos centralizados, com a relação dono/empregado bem explicita, para um modelo autogerido com características meritocráticas e que incita colaboração e participação.

Algumas empresas já têm testado isso recentemente no ambiente de DEFI. Em geral essas empresas são criadas por um programador, ou grupo de programadores, sendo as decisões iniciais e modelos de negócio muito baseadas nas experiencias deles e na resolução de um problema real que eles têm.

Outros são visionários e tem uma compreensão de como o mundo financeiro funciona que se assemelham aos grandes líderes das Big five de tecnologia.

Independente da origem dessas empresas, elas nascem com um objetivo claro de transferência de governança para os usuários e colaboradores. Por que isso é importante?

Primeiro porque, por serem plataformas abertas (qualquer um pode ir lá copiar tudo, mudar algumas linhas, e lançar um produto teoricamente melhor) elas têm a necessidade de ter engajamento das pessoas em dois níveis: no nível do colaborador-trabalhador e no do colaborador-usuário.

O colaborador-trabalhador é o usuário que está lá usando a plataforma, testando o código, sugerindo melhorias, apontando pontos de falha e tudo que um “funcionário” estaria pronto a fazer. Mas essa pessoa não é um funcionário.

Ele, muito das vezes, faz isso sem nenhuma compensação financeira. Mas, se ele faz isso não por dinheiro, por que faria? Reconhecimento da comunidade, prazer por fazer algo maior e ter seu nome escrito/reconhecido em algumas das linhas do código da plataforma são algumas das razões que vejo.

E para isso, a comunidade, a capacidade de ter voz nas decisões entre outros aspectos são muito importantes. Do ponto de vista do criador dessa plataforma, nada mais lógico que ir passando um pedaço dessa governança para ele a medida que ele se envolva com a plataforma, de tal forma que, no extremo, se ele for tomando as decisões certas, ele terá a possibilidade de influenciar muito a direção da plataforma.

Por outro lado, temos os colaboradores-usuários. Gente que que usa a plataforma pela sua funcionalidade. Sua participação é essencial pois é ela que dará corpo e volume para que a plataforma cresça e seja importante no longo prazo.

Do ponto de vista do criador da plataforma esse usuário é muito importante.

Não preciso me estender muito aqui pois está claro para qualquer negócio hoje que sem clientes não há negócio. Passando um pedaço da governança para esse usuário o que está sendo feito é dar voz para ele influenciar na solução que ele já gosta e usa. 

O que está no cerne da questão é como você obtém o engajamento dos seus “funcionários” e “clientes” de uma forma organizada, meritocrática, auto-gerível e sustentável no longo prazo. É isso que está sendo testado nessas formas de organização que estão sendo colocadas dentro do guarda-chuvas das DAOs (descentralized authonomous organizations) – organizações descentralizadas e com governança autônoma.

Para exemplificar como isso tem sido feito, nada melhor que entrar em um caso prático. Semana passada uma das principais plataformas de DEFI, a UNISWAP, resolveu distribuir sua governança pelos seus usuários.

Para se ter uma ideia da magnitude que isso já tem hoje, após a emissão do seu token de governança (UNI), já é possível calcular o valor de mercado dessa empresa que, a preços de quando escrevo esse texto, passa dos usd 2,0 bilhões, considerando o total de tokens emitidos.

O primeiro passo dessa transferência de governança é a definição do total de tokens que seriam emitidos (1 bilhão), seguido de forma como esses tokens seriam distribuídos. 40% foi distribuído entre o time, investidores e consultores que estão lá desde o início e os demais 60% foram separados para serem distribuídos pela comunidade de usuários. Desses 60%, 15% foi distribuído entre os usuários que já tiveram alguma interação com a plataforma e o restante 40% será distribuído ao longo dos próximos anos por uma regra previamente definida.

Se você, como eu, está entre os usuários dessa plataforma que interagiram com ela nos últimos meses, você foi comtemplado com ao menos 400 UNIs, que hoje valem perto de USD 1.500,00 e terá o poder de influenciar as votações sobre a estratégia da plataforma nos próximos anos.

Ou você também pode tomar a decisão de vender esses tokens e embolsar esse valor. A decisão é toda sua. Uma curiosidade é que a distribuição desses tokens foi muito comparada com uma renda mínima, que é um tema econômico muito quente atualmente por conta das iniciativas dos governos (os R$ 600,00 do Brasil entram aqui), porque foi muito próxima do valor do incentivo da pandemia aplicado nos EUA.

Essa distribuição, para os que tem a cabeça mais tradicional é muito vista como uma loucura completa. Um garoto que cria uma empresa que vale bilhões começa a dar “ações” dessa empresa para os seus clientes. Fazendo um paralelo é como se quanto mais usássemos o google ou facebook, mais ações deles ganhássemos e mais conseguíssemos influenciar no seu futuro.

Mas, se abrirmos um pouco mais a cabeça, esse mundo binário que divide capital e trabalho, patrão e funcionário, dono e empregado está ultrapassado. A geração que está entrando no mercado de trabalho hoje tem na sua essência conceitos de colaboração, empreendedorismo, participação, flexibilidade, comunidade e outros que não encaixam nesse formato.

Uma questão ainda em aberto para mim é o valor dessa governança. Em alguns pontos esses tokens parecem ações de empresas, em outros um prêmio para incentivar usuários a utilizar as plataformas. E aqui talvez precise não tentar colocar isso nas caixinhas fechadas que conhecemos hoje e tentar ver de uma forma mais ampla.

Outro ponto de discussão constante é o papel da regulação nesse ambiente, principalmente porque esses tokens de governança começam cada vez mais a se aproximar de valores mobiliários. Como são ativos que estão na rede da Ethereum, eles transcendem os limites geográficos das legislações. Tecnologia não está restrita a área geográfica faz tempo e cada vez mais ela entra no mercado financeiro. Tenho bastante dificuldade em ver como essas regulações deixarão de ser ligadas a áreas geográficas.

Sendo esse o meu terceiro texto aqui sobre assuntos relacionados a iniciativas de DEFI acho que já está claro o quanto tenho aprendido e me surpreendido com essas iniciativas, ou experiencias, que estão tocando em pontos importantes, não somente do mercado financeiro, mas de como as empresas serão no futuro. Espero ter trazido um pouco disso para você e vamos continuar nessa jornada.

Gostou? Algum ponto que não considerei? Me diga o que achou.

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