Gustavo Cunha

Inovador, empreendedor, economista, administrador, palestrante, professor, estudante, trader, investidor, entrevistador, executivo, pai, marido, filho, ciclista…

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Como salvar uma economia que fica 30 dias parada

*originalmente publicada na minha coluna da infomoney em 23/mar/2020

A discussão sobre se devemos ou não ficar todos em casa à altura que escrevo já está ultrapassada e é consenso mundial que essa é a forma mais viável (se não a única, no momento) de se conter a rápida propagação do Covid-19. E essa contenção significa salvar a vida de dezenas de milhões de pessoas mundialmente.

Mas quais os impactos financeiros desse shutdown do mundo por 30 dias?

Bem, a primeira dúvida que fica é quanto ao prazo. Ainda é incerto se somente 30 dias serão suficientes, e cenários com inúmeros shutdowns já não são facilmente descartados. A Inglaterra, por exemplo trabalha com três cenários, em que o último e mais severo é o de uma série de várias quarentenas que se extendem até final de 2021.

Mas voltando ao cenário de shutdown de 30 dias… Os impactos sobre a economia são devastadores. Na indústria conseguimos ver isso mais fácil, já que as fábricas param, mas aí não é o maior impacto, pois elas podem fazer mais turnos de produção quando tudo estiver resolvido e recuperar o período parado.

O maior impacto é em serviços. Ninguém vai jantar fora 8 vezes por semana quando tudo estiver resolvido porque ficou 4 semanas sem ir a um restaurante, por exemplo. A recuperação no setor de serviços é mais difícil. E a má notícia é que a maioria das economias atuais são baseadas em serviços (+ 60% do PIB vem desse setor).

Os efeitos em cadeia disso estão longe de serem ignoráveis. Não vamos nos enganar, até você que é empregado com carteira assinada, que está tranquilo que vai receber seu salário no fim do mês, deve se preocupar. Há uma chance de a sua empresa (pequena, média ou gigante) falir e você não ter mais emprego em breve.

Cenário cabuloso, mas que tem solução do ponto de vista econômico via impressão de dinheiro. Isso mesmo. O Banco Central imprime dinheiro e o Tesouro Nacional se incumbe de distribuir para todos: pessoas e empresas. Quanto mais ampla essa distribuição melhor.

Como funciona esse mecanismo?

O Tesouro Nacional emite um título para o Banco Central, esse por sua vez o paga em dinheiro, dado que é função do Banco Central a emissão de moeda. O Tesouro gasta esse dinheiro de maneira a salvar a economia de uma quebradeira geral. Isso pode ser via aumento significativo do valor do bolsa família, de linhas a fundo perdido para pequenos e médios empresários, até a remessa de um cheque pelo correio (alternativa que será testada nos EUA). Ou seja, qualquer coisa que seja usada na economia, que gire a economia. Só não pode voltar para ser investido em títulos do governo.

Como os juros que o BC paga ao Tesouro estão muito baixos, em alguns casos negativos, o valor que o Tesouro tem que devolver ao BC quando o título vence é quase o mesmo que ele pegou. Isso é uma ótima ajuda, já que, se os juros fossem altos, o Tesouro teria que aumentar consideravelmente os impostos no futuro para ter receita para pagar essa dívida. Mas temos que lembrar que, se ele distribuiu esse dinheiro, deu mesmo, em algum momento esse dinheiro terá que voltar para o Tesouro para ele pagar sua dívida com o BC.

Esse mecanismo me lembra o caso do BANESPA financiando o governo de São Paulo. Era muito parecido. O banco contraía dívida no mercado e comprava títulos do governo de São Paulo, e esse gastava. A diferença aqui é que o BANESPA não tinha capacidade de imprimir dinheiro e tinha que ir a mercado para captá-lo (via dívida). E aí com uma dívida crescente e com o não pagamento do Estado, que aliás sempre pedia mais, a casa caiu.

Mas no caso do Banco Central e conta é diferente, pois este tem a prerrogativa de criar dinheiro. É prerrogativa dele imprimir Reais.

Porque esse mecanismo é melhor do que o afrouxamento monetário (“quantitative easing”) que estão fazendo nos últimos anos? No “quantitative easing” o BC compra títulos já emitidos no mercado e imprime dinheiro em troca dele. Aqui é mais uma troca entre o BC e o mercado financeiro. Por exemplo, imagine um Banco que tenha alguns bilhões em títulos públicos na sua carteira, ele vende esses títulos para o BC que dá em troca dinheiro para o banco. O Banco fica com esse dinheiro para fazer o que quiser, e nos últimos anos o principal destino foi aumentar sua liquidez. Se o banco não fizer o dinheiro girar, e não o fizeram, essa atuação do BC somente aumentará a solidez do mercado financeiro. Além disso, esta estratégia não aumenta a dívida do governo. É uma operação de troca de ativos. 

No caso do título emitido para o BC, há um aumento da dívida do governo e uma monetização dessa dívida (troca de divida por dinheiro). Outro ponto importante é que o Tesouro pode distribuir esse dinheiro de uma forma mais universal, atingindo pessoas com propensão marginal a consumir maior, o que ajuda mais a economia a se recuperar, ou no caso, a não colapsar.

A pergunta que você deve estar se fazendo agora é: qual o limite para fazer se fazer isso? Pode o Tesouro emitir o que quiser e o BC comprar?

Do ponto de vista econômico é importante ressaltar que essa divisão de funções entre o BC e o Tesouro se faz exatamente para que isso não aconteça, ou que tenha algum limite, ao menos. Se fosse tudo a mesma coisa, o Tesouro sempre teria a tendência a emitir moeda para pagar suas dívidas e isso levaria a economia a uma situação de grande inflação e instabilidade.

Dito isso, nesse momento fico com a esplendida resposta do Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, que disse que na guerra não há limites para isso. Aumenta da dívida, imprime e resolve a guerra. Tudo dando certo, haverá esse problema da dívida para resolver depois.

Colocando em números, a única estimativa crível que vi até agora das perdas é da Bridgewater (maior hedge fund do mundo), que fala de um impacto mundial de aproximadamente USD 12 trilhões. Se for esse o número, é por volta disso que terá que ser impresso para que a economia não colapse. Só como referência o PIB americano (maior do mundo) é de USD 21 trilhões.

Ah! E como se resolve isso no futuro? Na teoria, via inflação. Ela existe, todos sabemos, mas hoje está mais difícil de encontrar que cabeça de bacalhau. Assunto para um próximo artigo.

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