Gustavo Cunha

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Bitcoin está morto. Longa vida ao Bitcoin

Crise derruba mitos do bitcoin, mas faz surgir o ativo nu e cru!

* Publicado originalmente na minha coluna da infomoney em 20/mar/2020

O dia 12 de março será um dia a ser lembrado por todos que acompanham o mercado de criptomoedas. Com queda de 40% do valor em dólar do Bitcoin, acompanhando a derrocada do mercado tradicional (S&P caiu quase 10%, Ibovespa 15% e por aí vai) caiu por terra um dos grandes mitos em relação a ele: o mito de que o Bitcoin (BTC) é uma reserva de valor, um ouro digital, e que todos correriam para ele em uma crise global.

Os números já não corroboravam com essa visão. Um que exemplifica isso é a correlação do Bitcoin com o ouro, que nunca foi claramente positiva, como pode ser observado no gráfico abaixo. Diferentemente da correlação do BTC com as outras criptos, como o Ethereum (ETH), por exemplo, onde a correlação é muito próxima de 1.

 Para quem não está familiarizado com correlação, ela mede a direção e a magnitude de movimento de um ativo em relação a outro. Se a correlação é +1 significa que os dois se moveram na mesma direção e na mesma magnitude (se um subiu 5% o outro também subiu 5%), se for -1, é o contrário (se um subiu 5% o outro caiu 5%), e se for zero, os movimentos são independentes (um subiu 5% e o outro ficou parado, por exemplo).

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Outro gráfico interessante mostra a correlação diária entre o Bitcoin e o S&P. Desde meados de fevereiro, e mais precisamente desde começo de março, que é quando se intensifica a crise, vem sendo muito próxima de 1. Ou seja, Bitcoin com um movimento muito mais parecido com o S&P do que com o ouro.

Assim sendo, vê-se que o Bitcoin ainda não consegue cumprir duas das três características das moedas, nomeadamente ser reserva de valor e meio de troca. Meio de troca não preciso explicar muito, já que ainda é difícil encontrar lugar que o aceite para pagamentos e, no caso de reserva de valor, o exemplo acima deixa isso claro.

Não há de se despreza também que atualmente há uma corrida desenfreada por dinheiro (cash) e todos os ativos entraram na mira de tiro para se fazer cash. Todos os ativos estão com correlação muito próxima de 1 nos últimos dias. “Cash is king” é o mote do mercado. E cash em dólares! Isso pode distorcer minha análise, mas aí me baseio na correlação de mais longo prazo do BTC com o ouro.

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Se nesse momento podemos matar o mito de que o Bitcoin é um ouro digital, isso quer dizer que para a frente o será assim? Aí é que entra a maravilha do mundo. Eu acho que não.

Um segundo momento dessa crise atual pode ser marcado por uma desconfiança em relação à manutenção do status quo do mercado financeiro, um sistema com uma rede de intermediários bastante complexa e de difícil manutenção.

Não é difícil imaginar algum elo desse mercado ser um elo fraco e que se subjugará à crise nesse momento, por mais que os Bancos Centrais (BCs) do mundo inteiro estejam alerta a isso. E aí que pode entrar no jogo uma característica incrível do Bitcoin que é ser peer to peer (sem intermediários).

Outro cenário é que após a enxurrada de dinheiro que os BCs estão fazendo, e a estabilização do sistema, tenhamos um período prolongado de inflação (esse é o sonho, e a torcida, de qualquer Banco Central nos últimos 10 anos) e aí ativos como o Bitcoin poderiam performar muito bem.

Se tivesse que fazer uma aposta hoje eu não descartaria o cenário de um Elo importante do sistema financeiro quebrar, mas não acredito ser o de maior probabilidade. Os BCs entenderam o problema que isso pode causar com o caso da Lehman Brothers em 2008, e devem socorrer todos e qualquer um.

Agora, quanto à inflação, eu sinceramente rezo para que ela venha. Se não vier, os cenários que consigo ver são certamente mais doloridos e incertos para o mundo todo. O problema é que nos últimos 10 anos inflação está mais difícil de encontrar do que cabeça de bacalhau.

Em resumo cai o mito e surge o ativo nu e cru.

Bicoin is dead, Long live Bitcoin

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