Gustavo Cunha

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Abrindo a carteira de investimentos da LIBRA

Texto publicado originalmente na minha coluna da infomoney – em 06/out/2019

Pouco mais de 3 meses após a divulgação do Whitepaper da Libra começam a surgir as primeiras informações, ou mais precisamente declarações de quais serão as moedas que farão parte da Libra, stablecoin criada por uma associação que atualmente tem o Facebook como líder.

Se você ainda tem dúvidas sobre o que é StablecoinLibra e moeda digital do Banco Central (CBDC), vale ler esses três textos também

Semana passada, a businesstimes, referenciando o jornal alemão Der Spiegel, publicou uma reportagem onde afirma que o facebook, respondendo ao questionamento do regulador alemão, disse que a carteira da Libra será composta por 50% de Dólar Americano, 18% Euro, 14% Yene, 11% Libra Britânica e 7% Dólar de Singapura. Essa proporção fica bastante diferente do que se especulava até o momento, conforme vocês podem ver na tabela abaixo.

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Quando escrevi minha primeira análise sobre o a carteira da Libra a maior probabilidade é que ela fosse composta por uma carteira bastante similar ao SDR, que é uma representação de uma cesta de moedas criada pelo FMI, o que, aparentemente, não acontecerá. Mas, o que aconteceu para ser diferente? Quais os impactos que isso pode ter? E mais, por que incluir o dólar de Singapura nessa cesta?

Minha primeira surpresa veio da inclusão do dólar de Singapura que é hoje uma moeda com uma liquidez muito próxima ao peso mexicano e que não tem, vamos dizer assim, uma influência global. O Franco suíço estava melhor colocado na minha lista de possíveis moedas para compor a carteira do que ela, afinal de contas, além do franco suíço ter mais liquidez que o dólar de Singapura, a associação Libra está sediada na Suíça. Além da moeda em si, a proporção em que ela foi colocada também me surpreendeu. 7% é um percentual considerável.

O porquê da escolha do dólar de Singapura fica mais fácil de entender quando analisamos os seus efeitos na carteira. Ao diminuir a proporção de euros, que no meu entender iriam para títulos da França e Alemanha que pagam juros negativos, e colocar o dólar de Singapura, que paga taxas de juros positivas, a rentabilidade esperada da carteira sobe de 0,63% para aproximadamente 0,93%. Um incremento significativo de receita. Apesar de, no mundo de hoje, dinheiro para startups e projetos como esse não sejam um problema não dá para desconsiderar esse efeito.

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Outra consequência dessa escolha é ter um pé na China, mas não diretamente. Isso tira a associação da linha de tiro das brigas comerciais/políticas entre os EUA e a China, ao mesmo tempo a aproxima da China. Singapura tem uma proximidade muito grande com a China, um mercado financeiro bastante desenvolvido, uma moeda conversível e um ambiente de inovação bastante proeminente e claro que isso ajudou na decisão. Ter uma moeda plenamente conversível era, a meu ver, um pré-requisito e por isso desde o início já estava claro que o Rembini Chinês não faria parte da composição da carteira Libra. O dólar de Singapura cumpre com esse pré-requisito o que dá a agilidade e a flexibilidade necessária para a administração das reservas pela associação.

Por fim, mas não menos importante, a Ásia tem passado por uma imensa reformulação no seu mercado financeiro e está muito à frente do ocidente no que tange a meios de pagamento, transações instantâneas, utilização de QR-code, dentre outras inovações do mercado financeiro. As duas principais empresas que dominam esse setor tiveram sua origem distinta do mercado financeiro (WeChat e Alipay) e, algumas semanas antes da publicação do Whitepaper da Libra, uma outra stablecoin similar teve seu Whitepaper publicado em Singapura, o que significa que tem espaço para colaboração lá e o governo Chinês está claramente em uma corrida acelerada para lançar sua moeda digital. Todos esses fatores, além dos citados anteriormente, também são razoes para a Libra querer estar presente na Ásia.

Seja pela busca de uma maior rentabilidade para a carteira, seja por colocar um pé na China sem entrar na briga comercial do presidente Trump, seja para conseguir buscar cabeças que estão pensando da mesma forma, a colocação do dólar de Singapura faz bastante sentido para a carteira da Libra a meu ver.

Muitas questões ainda ficam em aberto, como o porquê dessa proporção, se esse movimento não distancia um pouco a ideia de ter a libra atuando com os desbancarizados (e aqui falando especificamente de África e Américas central e do sul), se a decisão veio por fatores mais ligados a regulamentação, entre outras. Perguntas a serem respondidas em breve.

Caso queira discutir algum dos pontos acima é fácil me encontrar nos links abaixo:

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